Cidades mortas do Vale do Paraíba: roteiro de 1 dia por Areias e São José do Barreiro (SP)

Você já ouviu falar das chamadas cidades mortas? Será que são cidades abandonadas? Ou cidades que não mais existem? São cidades fantasmas? São cidades pouco movimentadas?

Apesar do nome que à primeira vista soa aterrorizante, as cidades mortas são um conjunto de cinco municípios históricos da região do Vale do Paraíba, no Estado de São Paulo.

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Cidades mortas – são cidades históricas situadas no Vale do Paraíba paulista. Na foto, casarão histórico em São José do Barreiro (Foto: Acervo pessoal – Tissiana Souza).

Estes municípios tem suas sedes localizadas ao longo da SP068, a Rodovia dos Tropeiros, e viveram seu apogeu econômico durante o ciclo do café no Século XIX. São eles:

  • Bananal, com 9.969 habitantes,
  • Arapeí, com 2.330 habitantes,
  • São José do Barreiro, com 3.853 habitantes,
  • Areias, com 3.577 habitantes, e
  • Silveiras, 6.186 habitantes.

A popularização do nome de Cidades Mortas foi dada pelo escritor Monteiro Lobato (1882-1948), que em 1919 publicou um livro de contos homônimo.

Em uma das minhas viagens para o Vale do Paraíba, convidei meus pais para irmos até São José do Barreiro e Areias, duas das cidades mortas que conheci durante um trabalho de campo na época em que eu ainda cursava Geografia na UNESP. Eles toparam e passamos o dia visitando essas duas pequenas cidades históricas.

Cidades Mortas – Um resumo de sua importância histórica:

As cidades mortas estão em uma rota chamada Vale Histórico, no qual se destacam:

  • antigas fazendas de café,
  • casarões coloniais (patrimônios arquitetônicos), e
  • atrativos naturais, como Serra da Bocaina, cachoeiras, trilhas e a Mata Atlântica.

De acordo com o site Turismo Paulista, a região do Vale Histórico chegou a ser uma das mais ricas do Brasil, com metade da produção e da comercialização do café do país no Século XIX.

Aliado ao ciclo do café, o Vale Histórico também fazia parte da rota dos tropeiros, sendo um caminho de conexão com o litoral.

Naquela época, as atuais cidades mortas eram pontos de parada das tropas. A Estrada dos Tropeiros ajudava a conectar as cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. Inclusive, em 1822, D. Pedro I e sua comitiva passou pela estrada antes de chegar a São Paulo e proclamar a Independência do Brasil.

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As fachadas das residências históricas das cidades mortas são um convite às fotos . Nesta imagem, estou em Areias (Foto: Acervo pessoal – Tissiana Souza).

Conforme o site Cachoeira Paulista – Turismo Religioso, Bananal chegou a ser a cidade mais importante do Vale do Paraíba e a cidade mais rica da Província de São Paulo devido à produção do café.

Diversos fatores atuaram em conjunto para a decadência do Vale Histórico e o surgimento do apelido de “cidades mortas”. Podemos citar:

  • A expansão cafeeira para o Oeste Paulista, o que alterou o eixo econômico da Província;
  • O esgotamento do solo devido à ausência de boas técnicas de plantio e conservação;
  • A abolição da escravatura e a falta de incentivos ao trabalho livre (por mais de 300 anos o Brasil utilizou mão de obra escrava);
  • O isolamento geográfico natural provocado pelo terreno acidentado dos mares de morros da Serra da Bocaina, que impõe desafios à engenharia.

Com a decadência econômica do Vale Histórico, houve queda de investimentos, migração de moradores e de fazendeiros para cidades maiores e abandono de casarões coloniais.

Atualmente, a soma de todos os habitantes das cinco cidades mortas do Vale do Paraíba não atinge 30.000 habitantes (Fonte: dados do Censo 2022 do IBGE).

Nas cidades mortas, a economia nos dias de hoje gira em torno dos seguintes setores:

  • pecuária;
  • agricultura;
  • ecoturismo, com o Parque Nacional da Serra da Bocaina;
  • cachoeiras;
  • artesanato;
  • culinária;
  • turismo histórico e rural.
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O turismo histórico é uma das atividades econômicas que movimentam atualmente as cidades mortas no vale do Paraíba. Esta foto é em São José do Barreiro (Foto: Acervo pessoal – Tissiana Souza).

Entendemos o que são as cidades mortas do Vale do Paraíba e o porquê desse nome esquisito.

Agora chegou o momento de conhecermos duas dessas cidades mortas: Areias e São José do Barreiro, em um roteiro de 1 dia.

São José do Barreiro:

Elevado à condição de município em 9 de Março de 1859, São José do Barreiro está situado na divisa com o Estado do Rio de Janeiro.

Segundo o IBGE, o nome da cidade surgiu devido à existência de um atoleiro (barreiro) na época das chuvas, que dificultava a passagem dos tropeiros.

Já São José vem do fato da população ter erguido uma capela para o santo na antiga vila formada por ranchos que recebiam as tropas.

A Fazenda Pau D’Alho, antiga produtora de café e atualmente tombada como patrimônio histórico, recebeu o futuro Imperador do Brasil D. Pedro em 1822, dias antes da Proclamação da Independência (Fonte: IBGE).

No centro histórico da cidade, o casario colonial está concentrado nas ruas de entorno à Igreja Matriz de São José, inaugurada em 1881 (Fonte: Prefeitura de São José do Barreiro). Em frente à Igreja Matriz está a Praça Coronel Cunha Lara.

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Igreja Matriz de São José, no Centro Histórico de São José do Barreiro (Foto: Acervo pessoal – Tissiana Souza).

Para contemplar os edifícios históricos e as ruas de paralelepípedos, que remetem à época da glória do café no Século XIX, comece pela Igreja Matriz, seguindo pela SP068 (que cruza a cidade). Siga pela Rua Comendador Luiz Ferreira.

Vire à esquerda na Praça Josias de Marins Freira, onde está o Cine Theatro São José e à esquerda vire novamente na Rua Siqueira Reis.

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O Cine Theatro São José é um prédio histórico que revela como a cidade de São José do Barreiro foi importante durante o auge do ciclo do café. Hoje, São José do Barreiro é uma das cidades mortas (Foto: Acervo pessoal – Tissiana Souza).

Segundo a Prefeitura Municipal de São José do Barreiro, em especial publicitário publicado no site G1, este é o município que apresenta a maior quantidade de prédios históricos no Vale Histórico.

Dentre outras opções de visita histórica ao centro desta cidade morta, há um Circuito Turístico Autoguiado lançado em 2021 pela Prefeitura Municipal, cujos pontos de destaque são:

  • Igreja Matriz;
  • Cine Theatro São José;
  • Casarões coloniais;
  • Estação de Trem;
  • Cemitério dos Escravos – tombado pelo CONDEPHAAT;
  • Praça da Seresta;
  • Câmara Municipal (antiga Cadeia Pública).
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Caminhar pelas ruas de São José do Barreiro é a melhor forma de descobrir sua arquitetura colonial (Foto: Acervo pessoal – Tissiana Souza).

Para fechar esta primeira parte do roteiro de 1 dia pelas cidades mortas, minha dica para comprar lembranças e artesanato é a loja “Rancho Gastronomia e Cultura” que fica em frente à Praça Coronel Cunha Lara, na esquina das ruas Cap. Antônio Gomes e Siqueira Reis.

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Aqueles produtos típicos de vendas e empórios do interior. O fumo de corda é um deles (Foto: Acervo pessoal – Tissiana Souza).

Mirante da Revolução Constitucionalista de 1932 – SP068 (Areias):

No caminho entre as cidades mortas de Areias e São José do Barreiro, às margens da SP-068 Rodovia dos Tropeiros, está o Mirante da Revolução Constitucionalista de 1932.

O mirante é um local histórico, que foi utilizado como sítio para o Comando das Forças Armadas Paulistas e foi ponto de batalhas (Fonte: Prefeitura Municipal de Areias).

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O mirante da Revolução Constitucionalista de 1932, entre as cidades mortas de Areias e São José do Barreiro é um lugar excelente para se deslumbrar com a vista da Serra da Bocaina (Foto: Acervo pessoal – Tissiana Souza).

Situado no alto do Morro Frio, no Km255 + 270,6 m, o mirante foi inaugurado em 10 de Setembro de 2021. A homenagem à Revolução de 32 é representada por uma estátua de um soldado paulista feita em pedra-sabão, com 400 kg e 1,60 m de altura. O artista responsável pela obra é Tadeu Florentino, de Ouro Preto – MG (Fonte: Página Oficial da Prefeitura Municipal de Areias no Facebook).

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Homenagem aos soldados da Revolução de 1932, no mirante (Foto: Acervo pessoal – Tissiana Souza).

O mirante tem uma vista privilegiada da Serra da Bocaina e seus mares de morros. Ao fundo, nas partes mais altas da serra, observa-se uma densa vegetação, a Mata Atlântica. O local é ótimo para a contemplação da paisagem serrana da região das cidades mortas e rende fotografias belíssimas.

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Serra da Bocaina coberta por Mata Atlântica, vista do Mirante da Revolução de 1932 (Foto: Acervo pessoal – Tissiana Souza).

Areias:

Areias é mais uma das atuais cidades mortas do Vale Histórico, que surgiu como um ponto de parada de tropeiros durante o Século XVIII.

Sua emancipação política ocorreu em 28 de novembro de 1816, por alvará assinado pelo Rei Dom João VI (Fonte: IBGE).

De acordo com o site da Estrada Real, Areias foi a primeira cidade da região do Vale Histórico a cultivar café.

O nome da cidade vem da palavra tupi “haie”, que significa “atalho” (Fonte: IBGE).

Os atrativos do centro histórico da cidade morta de Areias estão, em sua maioria, localizados ao longo da Rodovia dos Tropeiros. Vamos a eles:

  • Casa da Cultura: edifício histórico de 1833, construído com o objetivo de ser Câmara de Vereadores e Cadeia Pública, além de também ter sido o Fórum da cidade. Entre 1907 e 1911, o escritor Monteiro Lobato trabalhou neste prédio como Promotor Público (Fonte: Prefeitura Municipal de Areias). Atualmente, contém um acervo museológico e abriga Biblioteca Municipal.
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A Casa da Cultura, em Areias, onde trabalhou Monteiro Lobato (Foto: Acervo pessoal – Tissiana Souza).
  • 2ª Residência de Monteiro Lobato: fica próxima à Casa da Cultura.
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Segunda residência de Monteiro Lobato, próxima à Casa da Cultura (Foto: Acervo pessoal – Tissiana Souza).
  • Igreja Matriz Senhora Sant’ Ana: com construção iniciada em 1792 e finalização em 1874, possui um sino original do Século XIX com 1.100 kg e 1,5 m de altura (Fonte: Prefeitura Municipal de Areias).
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Igreja Matriz Senhora Sant’Ana (Foto: Acervo pessoal – Tissiana Souza).
  • 1ª Residência de Monteiro Lobato: foi no sobrado próximo à Igreja Matriz e geminado ao Solar Imperial que Monteiro Lobato deu os primeiros passos na literatura.
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A 1ª residência de Monteiro Lobato na cidade de Areias (Foto: Acervo pessoal – Tissiana Souza).
  • Casa do Capitão Mor ou Solar Imperial: edifício histórico datado de 1798, que pertencia ao Capitão-mor Gabriel Serafim da Silva. Nesta casa dormiu o Príncipe D. Pedro, em 17 de agosto de 1822, alguns dias antes de proclamar a Independência do Brasil em São Paulo (Fonte: Prefeitura Municipal de Areias). Segundo a Prefeitura Municipal de Areias, em publicação de Especial Publicitário para o site G1 em 2019, o Solar do Capitão-Mor foi utilizado para a realização de uma das últimas festas da Família Imperial brasileira, em 1888, quando a Princesa Isabel organizou uma celebração para comemorar Abolição da Escravatura.
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O Solar Imperial ou Casa do Capitão-Mor, onde já pernoitou D. Pedro I (Foto: Acervo pessoal – Tissiana Souza).
  • Praça 9 de Julho: considerada o coração da cidade de Areias.
  • Escola Estadual Barão da Bocaina: datado do Século XIX, o edifício teve várias funções, como residência, hospital, cinema e correio. Em 1911, o prédio foi transformado em escola (Fonte: Prefeitura Municipal de Areias).
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Escola Estadual Barão da Bocaina, em Areias (Foto: Acervo pessoal – Tissiana Souza).
  • Antiga Santa Casa: este casarão atualmente é a CMEI Prof.ª Branca de Oliveira Abreu Reis. Construído em 1825, é outro edifício da cidade que teve outras finalidades, como residência, hospital e Casa da Cultura.
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Edifício da antiga Santa Casa de Areias (Foto: Acervo pessoal – Tissiana Souza).
  • Casa do Artesão de Areias: apesar de ser uma construção recente, datada de 1998, segue a arquitetura em estilo colonial da cidade. A Casa do Artesão comercializa produtos locais, além de produtos típicos da região, como cachaças e doces (Fonte: Viação Pássaro Marron).
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Casa do Artesão (Foto: Acervo pessoal – Tissiana Souza).
  • Mirante do Cristo de Areias: inaugurado em 2010 e situado no Bairro de Santa Clara (fora da Rodovia dos Tropeiros), permite vista panorâmica da cidade, que se estende pelos Mares de Morros da Serra da Bocaina.
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A pequena cidade de Areias vista do Mirante do Cristo, com a Serra da Bocaina ao fundo (Foto: Acervo pessoal – Tissiana Souza).

Para almoçar em Areias, minha dica é o “Empório Santana – Restaurante, Almoço, Hambúrguer Artesanal“, que fica na antiga 1ª Residência de Monteiro Lobato. O endereço é Rodovia dos Tropeiros, n.9, Centro.

Outras curiosidades sobre Areias:

Além de Monteiro Lobato, outra figura da literatura brasileira que também passou por Areias no ano de 1902 foi Euclides da Cunha, autor de “Os Sertões”. Atuando como engenheiro, Euclides da Cunha trabalhou na construção de duas pontes e projetou a reforma do edifício da Casa da Cultura (Fonte: Prefeitura Municipal de Areias).

E se você pensou que a ligação com os escritores brasileiros acabou, há mais história: Lygia Fagundes Telles (1918-2022), considerada “a dama da literatura brasileira”, viveu em Areias entre 1931 e 1936, devido à profissão de seu pai (promotor e delegado). As memórias dos anos vividos na cidade inspiraram o livro “A Disciplina do Amor”, publicado em 1980 (Fonte: Prefeitura Municipal de Areias).

Outra personalidade das artes que passou por Areias, já no ano de 1973, foi o paisagista Roberto Burle Marx (1909-1994), que projetou um jardim para o antigo terreiro de café da Fazenda Vargem Grande (Fonte: Prefeitura Municipal de Areias).

Para mais informações, confira o livro digital “Vale a Pena Turistar em Areias – Vale das Histórias”:

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As cidades mortas são a memória viva de um passado glorioso do Ciclo do Café ao longo dos Séculos XVIII e XIX. Os casarões, as ruas de paralelepípedos e as fazendas antigas guardam histórias que necessitam serem propagadas para entendermos melhor sobre o nosso país.

O Vale do Paraíba guarda ainda mais preciosidades além das cidades mortas, como os campos de lavanda de Cunha e o Santuário Nacional de Aparecida. É uma região que vale a pena conhecer com tranquilidade e tempo. O que você conhece sobre essa região? Já visitou as cidades mortas ou já tinha ouvido falar delas?

Para saber mais sobre meu estilo de vida, meu cotidiano e onde estou neste momento, acesse meu perfil no Instagram @blogdatissitissi. Sugestões de postagens são bem-vindas pelo e-mail tissinorole@gmai.com.

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