Lisboa e o Terremoto de 1.755

Você sabia que no dia 1º de novembro de 1.755 – celebrado como o Dia de Todos os Santos para o Catolicismo – Lisboa, capital de Portugal, foi atingida por um terremoto de grandes proporções?

Este evento é conhecido como o Sismo de Lisboa e até os dias de hoje é considerado uma das maiores catástrofes naturais da Europa.

O terremoto de 1.755 devastou a parte baixa da cidade, que foi reconstruída por um projeto urbano liderado pelo Marquês de Pombal, na época o Secretário de Estado de Portugal, cargo que ocupou até 1.777.

Lisboa e o Terremoto de 1755
É incrível imaginar que boa parte dessas construções de Lisboa só foram construídas após 1.755 (Foto: Acervo pessoal – Tissiana Souza).

A data do terremoto foi interpretada pelos religiosos da época como um castigo divino enviado pela ira de Deus.

Para a ciência, foi um marco na Sismologia, já que o Marquês de Pombal procurou obter informações através de um questionário com diversas perguntas enviadas aos párocos, que posteriormente foram utilizadas para entender melhor o fenômeno.

De acordo com um artigo científico publicado pela Prof.ª Dr.ª Filomena Amador, da Universidade Aberta de Lisboa, no ano de 2.007, o Marquês de Pombal também proibiu que fossem publicados em Portugal quaisquer textos que justificassem de forma supersticiosa a ocorrência do terremoto de 1.755, de maneira que fossem explicadas à população as causas naturais deste evento.

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Retrato do Marquês de Pombal, por uma oficina Portuguesa do século XVIII (Fonte: Palácio do Correio Velho, disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Retrato_do_Marqu%C3%AAs_de_Pombal_%28Escola_portuguesa_do_s%C3%A9c._XVIII%29.png#).

Como era Lisboa antes do Terremoto de 1.755?

Lisboa antes do terremoto de 1.755 tinha um traçado urbano típico de cidades medievais, com ruas estreitas e sinuosas, que se assemelhavam a um labirinto.

De acordo com Tavares, Amador e Pinto (2005), a cidade apresentava problemas de salubridade neste período, em especial em suas áreas mais antigas, apesar de ser considerada cosmopolita e por apresentar um porto de extrema importância comercial.

Imagem de Lisboa presente em uma tese, porém com um arquivo sem a capa e a autoria.

Os mesmos autores afirmam que Lisboa expunha áreas com distintas formas urbanísticas. A parte construída com influências mouriscas (muçulmanas) continha becos e passagens estreitas, enquanto a Lisboa cristã era dotada de igrejas e pequenas ruas apertadas, com espaços destinados para sepultamento dos mortos. Havia ainda uma discrepância entre a altura das construções e a largura das ruas, além de pouca preocupação com a estética externa dos imóveis.

Em termos sanitários, a cidade também aparentava ser bastante nojenta, sem sanitários nas residências, com despejo de lixo e excrementos pelas ruas e com uma rede de esgoto insuficiente para atender a população, chegando ao Rio Tejo todo tipo de sujeira (Tavares, Amador e Pinto, 2005).

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Não consigo imaginar o Rio Tejo com muita sujeira, mas ele era um receptor de dejetos no período pré-terremoto. Nesta foto, vemos a Praça do Comércio (Terreiro do Paço), às margens do Rio Tejo (Foto: Acervo pessoal – Tissiana Souza).

Como foi o terremoto de 1.755 – o Sismo de Lisboa?

Na manhã de sábado de 1° de novembro do ano de 1.755, por volta das 09h30 ou 09h40, os moradores de Lisboa sentiram os primeiros abalos sísmicos.

Como era o dia de Todos os Santos, as igrejas estavam cheias para as celebrações da data e as ruas da cidade, movimentadas (Fonte: Biblioteca Nacional).

Zonas de Lisboa que foram atingidas pelo terremoto de 1.775 (Fonte: FRANÇA, J. A., p.12, 1989).

O epicentro do terremoto estava situado a cerca de 200 ou 300 km de Lisboa, no Oceano Atlântico, e até hoje não se sabe com precisão absoluta onde está o ponto principal de origem do fenômeno.

Várias partes de Portugal, assim como Espanha e a costa africana, sobretudo Marrocos, sentiram os impactos dos tremores de terra, porém nada se comparou ao estrago causado em Lisboa.

Acredita-se que a sucessão de tremores de terra, que variaram entre mais brandos e mais fortes, tenham durado entre 7 e 15 minutos e que tenha atingido a intensidade 9 na Escala Richter.

Com o caos instaurado na cidade, as pessoas fugiram descontroladamente das construções em desabamento e dos incêndios em direção à Baixa de Lisboa, justamente o ponto mais suscetível da capital e ao mesmo tempo o mais povoado.

Ilustração mostrando as ruínas na cidade de Lisboa, após o terremoto de 1.755 (Fonte: Biblioteca Nacional, Coleção de Algumas Ruínas de Lisboa causados pelo terremoto e pelo fogo do primeiro de novembro do ano de 1755).

Segundo Silva (2016), o fato de ser um dia de celebração católica provavelmente contribuiu para a propagação dos incêndios. Muitas velas tanto para a iluminação das casas, como para as orações e celebrações religiosas estavam acesas e com o sismo, caíram sobre móveis e tapeçarias e iniciaram a propagação de focos de incêndio.

As construções eram muito próximas umas das outras e a cidade era um labirinto de ruas estreitas, fazendo com que o fogo se propagasse com mais rapidez e que durasse por aproximadamente até 6 dias após o início da catástrofe.

Destruição de Lisboa (Fonte: Biblioteca Nacional, Coleção de Algumas Ruínas de Lisboa causados pelo terremoto e pelo fogo do primeiro de novembro do ano de 1755).

Não bastasse o forte tremor e os focos de incêndio, o terremoto gerou tsunamis que adentraram pela foz do Rio Tejo cerca de duas horas após o grande tremor, alagando e destruindo ainda mais a região da Baixa de Lisboa. Aqueles que escaparam dos desabamentos foram levados pelas ondas.

Estima-se que naquela época Lisboa possuía cerca de 200 mil moradores, e que aproximadamente 10 mil tenham morrido em decorrência dos seguidos desastres. Entretanto, outras estimativas apontam que até 50 mil ou 70 mil pessoas tenham perdido suas vidas.

Após o tremor principal da manhã, outros abalos de menor magnitude foram sentidos nas 24 horas seguintes e nos oito dias após o dia 1° de novembro, mais 28 abalos sísmicos. Outros tremores de grande magnitude foram sentidos nos dias 08/11; 15/11; 16/11 (com tsunami); 18/11; 08/12; 12/12 e 21/12.

Diversos edifícios importantes da cidade foram completamente destruídos, como a Biblioteca Real e seus mais de 70 mil exemplares de livros e obras de arte, a então recém-inaugurada Ópera do Tejo (ou Casa de Ópera), a Torre de São Roque e o Convento do Carmo, este último tem suas ruínas em pé até os dias atuais como uma lembrança viva daquele dia.

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Ruínas do Convento do Carmo, em Lisboa (Foto: Chantal Haddad on Pexels.com).

Cerca de 95% das igrejas desmoronaram e 80% de mosteiros e conventos foram destruídos, além de palácios e cerca de outros 10 mil edifícios, assim como 6 hospitais da cidade. Acredita-se que 85% das construções da cidade, na época, foram afetadas pela ação das forças da natureza.

A Família Real escapou da tragédia porque estava na região de Belém e o Rei D. José I, traumatizado com tudo o que viu, passou o restante da vida morando em tendas na região lisboeta da Ajuda, por medo de dormir em locais fechados.

A reconstrução da capital portuguesa

“Enterrar os mortos, cuidar dos feridos e fechar os portos”.

Após a destruição quase completa de Lisboa, um plano de emergência com 14 critérios foi elaborado pelo Marquês de Pombal, a fim de manter a ordem na cidade.

De acordo com a Prof.ª Filomena Amador (2007), uma das primeiras medidas a serem adotadas foi o sepultamento dos corpos a fim de evitar a proliferação de doenças e pestes. Segundo o site Brasil Escola e Silva (2016), as vítimas foram enterradas em valas comuns o mais profundas possíveis ou lançadas ao mar por embarcações a certa distância da costa, com pesos para que afundassem e ficassem submersas.

Com a situação excepcional de enterrar rapidamente os corpos e evitar a peste, não houve tempo para identificação das pessoas e não se sabia quantos estrangeiros estavam na cidade.

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As ruas arejadas da Baixa Lisboa, o padrão e a distância das construções foram projetados após o Terremoto de 1755 (Foto: Acervo pessoal – Tissiana Souza).

Foi um agravante o fato de que os registros de mortes naquele tempo eram realizados pelas igrejas, que foram destruídas e perderam todos os seus documentos. Assim, não se pode contabilizar o real número de pessoas mortas durante o evento (Fonte: SILVA, 2016).

Outra medida estabelecida foi o pronto-atendimento de doentes e feridos que estavam desamparados pelas ruas da cidade e em perigo de morte, sendo convocados para esta missão não somente os profissionais de saúde da época, mas também a população em geral. Mais uma vez, a medida visava o controle de possíveis doenças, sendo mais uma alternativa sanitária adotada pela administração (Fonte: AMADOR, 2007).

A fome era outro assunto de extrema importância para a administração real, já que os armazéns e casas de grãos ficavam localizados próximos ao porto e foram completamente arrasados pelas ondas, e os alimentos ainda disponíveis passaram a ter preços superfaturados pelos comerciantes.

Mais uma vez, o Marquês de Pombal tomou as rédeas da situação e solicitou que embarcações com alimentos que estivessem nos arredores do Rio Tejo e de Portugal fossem direcionadas para Lisboa, a fim de distribuir comida para a população de acordo com as necessidades de cada bairro.

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A Praça do Comércio (Terreiro do Paço) faz parte do projeto urbano de reconstrução de Lisboa (Foto: Acervo Pessoal – Tissiana Souza).

Para iniciar a retirada dos escombros, cuidar dos feridos, iniciar uma possível reconstrução e evitar que os moradores abandonassem Lisboa, o Marquês de Pombal foi enérgico ao instaurar um decreto em de 3 de novembro de 1.755, que proibindo a saída de pessoas e de mantimentos da cidade sem autorização prévia (Fonte: SILVA, 2016).

Como destacado no início do texto, a cidade apresentava diversos problemas sanitários e urbanísticos antes do terremoto e o novo plano de urbanização e reconstrução apresentado pelo engenheiro Manuel da Maia para o Marquês de Pombal e para o Rei D. José I também trouxe a possibilidade de inserção de uma nova visão de saúde pública para a capital. Segundo Tavares, Amador e Pinto (2005), as novas medidas contemplavam:

  • Elevação da parte baixa da cidade com camadas de escombros das ruínas das antigas construções, visando evitar a infiltração de águas do Rio Tejo;
  • Abertura de ruas largas com pavimentação adequada à circulação de veículos com rodas, em um plano de formato em quadrícula;
  • Edifícios construídos com altura ordenada, permitindo a circulação de ar e a entrada de luz solar;
  • Desenvolvimento de um plano de rede de esgotos;
  • Construção de passeios públicos.

Para os edifícios foi adotado um padrão rígido de arquitetura, que deveria seguir todas as ordenações:

  • Construção de edificações com o sistema antissismo conhecido como “gaiola pombalina”, que consiste em uma estrutura interna de madeira flexível que permite que o revestimento caia, mas que a estrutura permaneça em pé;
  • Paredes resistentes ao fogo;
  • Existência de pátios entre os edifícios, possibilitando a iluminação pela luz solar e o despejo de dejetos para a rede de esgoto.
Gaiola Pombalina: sistema estrutural anti-sismo (Foto: ObraLisboa, https://www.obralisboa.com/post/gaiola-pombalina-reconhecer-estrutura-remodelacao-lisboa).

Nem todas as soluções foram colocadas em prática durante a reconstrução da cidade, porém o que foi aplicado provocou uma revolução urbanística em termos de salubridade e higiene pública, possibilitando uma melhor qualidade de vida para os habitantes da cidade até os dias de hoje.

Com o plano de urbanização, as igrejas tiveram prioridade absoluta e foram os primeiros edifícios a serem reconstruídos, podendo inclusive, promover renovações em seus projetos arquitetônicos.

Uma das mudanças mais propagadas e incentivadas pelo Rei D. José I foi a construção de um espaço aberto e amplo na frente das igrejas, em forma de átrio ou praça.

Alguns pontos da cidade resistiram ao Terremoto de 1.755:

  • Igreja de São Roque, do século XVI, situada no Bairro Alto;
  • Aqueduto de Águas Livres, inaugurado pouco antes do terremoto, construído no Século XVIII;
  • Igreja Paroquial de São Cristóvão e São Lourenço, na colina do Castelo de São Jorge;
  • Palácio da Independência, conhecido também como Palácio da Restauração, situado entre a região do Rossio e Restauradores;
  • Casa dos Bicos, pertencente à Fundação José Saramago, na Rua dos Bacalhoeiros – região da Baixa, muito próximo ao Terreiro do Paço;
  • Rua dos Cegos, no Bairro da Alfama;
  • Largo do Menino Deus, no Bairro da Alfama;
  • Rua do Benformoso, na região da Mouraria;
  • Beco de São Miguel, no Bairro da Alfama;
  • Rua da Atalaia, no Bairro Alto;
  • Beco da Achada, na colina do Castelo de São Jorge;
  • Largo do Chafariz de dentro, na parte baixa do Bairro da Alfama.

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Referências consultadas:

AMADOR, FILOMENA. O terramoto de Lisboa de 1755: colecções de textos do século XVIII. História, ciências, saúde – Manguinhos. Rio de Janeiro, v. 14, n. 01, p. 285-323, 2007.

SILVA, JÚLIO CÉSAR COSTA. O terremoto de Lisboa de 1755 e a trajetória política de Sebastião de Carvalho e Melo. 2016. Dissertação (Mestrado em História). Universidade Federal do Espírito Santo. 151 folhas.

TAVARES, MARIA JOSÉ FERRO; AMADOR, FILOMENA; PINTO, MANUEL SERRANO. O terramoto de Lisboa de 1755: tremores e temores. Cuadernos Dieciochistas. Salamanca, v. 06, p. 43-77, 2005.

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Quem visita a região da Baixa de Lisboa ou Baixa Pombalina, coração da capital de Portugal, talvez nem imagine que esta parte da cidade passou uma história relacionada a uma tragédia natural, e que, ao mesmo tempo, trouxe uma renovação urbanística e arquitetônica para a cidade.

Você sabia da ocorrência do terremoto de 1755 antes de se aventurar por este texto? Agora que você conhece a história, caso você esteja com viagem marcada para Lisboa, vai observar a cidade sobre uma outra perspectiva? E se você conhece Lisboa, passou a entender melhor a organização do centro histórico da capital a partir dessa postagem?

Lisboa é a cidade dos miradouros e da luz solar, mas também é o berço de histórias curiosas!

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