Quem gosta de assistir às partidas de futebol, especialmente acompanhar os campeonatos que envolvem times sul-americanos, como a Copa Libertadores da América, comumente escuta a seguinte frase: “É difícil jogar na altitude”, “Vai ser muito difícil ganhar na altitude”.
Sempre fiquei pensando como os atletas, no caso, os jogadores de futebol, tentavam se adaptar a essa mudança tão brusca. Uma das alternativas é a presença de oxigênio à beira do gramado.
Quem nunca viajou para lugares muito altos pode pensar que isso é frescura ou exagero. Que os atletas podem usar a altitude como justificativa de um resultado negativo. Mas não… Neste texto você vai descobrir por quê a altitude é tão temida.

O que é altitude?
Antes de falar sobre o soroche ou mal de altitude, vamos compreender o que é a ALTITUDE.
Para iniciar, altitude é diferente de altura. Essas palavras não têm o mesmo significado.
Segundo o Dicionário Oxford, a altitude é:
“elevação vertical de um ponto qualquer da superfície terrestre em relação ao nível zero ou nível dos oceanos”.
Observe a imagem a seguir para entender que altitude e altura são diferentes:

O que é Soroche ou Mal de Altitude?
Soroche, Mal de Altitude ou Mal da Montanha. Esses nomes se referem a um mesmo problema:
um conjunto de sintomas resultantes da menor pressão do ar, que, em geral, se manifesta no corpo humano com maior intensidade acima de 2500 metros acima do nível do mar.
O Brasil é um país caracterizado por baixas altitudes. Mesmo na cidade mais alta do país – Campos do Jordão, na Serra da Mantiqueira paulista – a altitude ainda pode ser considerada baixa, com 1639 metros acima do nível do mar.
O mais importante é NUNCA SUBESTIMAR os efeitos causados pela altitude, já que são bastante imprevisíveis.

Algumas pessoas, como é o meu caso, são sensíveis a essa grande variação altimétrica. Outras, mesmo vivendo em áreas baixas, podem passar uma viagem inteira sem sofrer os efeitos e ter dias absolutamente normais.
Se você nunca viveu essa sensação, terá de esperar sua viagem começar para saber o que vai acontecer.
Iniciando uma viagem nas altas altitudes:
O mais adequado para a adaptação à altitude é passar pela aclimatação, ou seja, subir aos poucos para lugares mais altos.
Se você tiver tempo e oportunidade, o melhor a fazer é começar pelos lugares mais baixos.
Nem sempre a aclimatação é possível por questões financeiras ou rotas escolhidas, e talvez seja necessário iniciar a viagem por um lugar de altitude elevada.
Em 2018, quando fiz o mochilão por Bolívia, Chile e Peru, o ponto de partida foi a cidade de La Paz, a 3640 metros acima do nível do mar.

O soroche foi imediato e logo nos primeiros passos senti tontura. Veio o medo de ficar mal por muito tempo, pois eram os primeiros minutos de um total de quase 30 dias de viagem.
Talvez, se eu tivesse comprado um medicamento na farmácia do Aeroporto, pudesse ter amenizado os primeiros sintomas.
Resolvi esperar até a manhã do dia seguinte e os efeitos ficaram mais intensos.
Na altitude, movimentos simples do dia a dia tornam-se complexos. Descer do beliche, virar na cama, olhar para o lado rapidamente, agachar e levantar, subir escadas e ladeiras viram grandes desafios.

Quais são os efeitos provocados pelo soroche ou mal de altitude?
Como disse no início do texto, cada pessoa reage de uma maneira aos efeitos provocados pelo mal de altitude, por isso é considerado imprevisível.
Abaixo, veja as principais reações corporais ao soroche e os efeitos que senti estão marcados entre parênteses:
- Dores de cabeça (*tive);
- Tontura/Vertigem (*tive);
- Náuseas (*tive);
- Vômito (*tive);
- Fadiga (*tive);
- Insônia;
- Falta de ar (*tive);
- Aumento da frequência cardíaca (*tive);
- Desmaio;
- Falta de apetite (*tive);
- Inchaço nas mãos e nos pés (*tive);
- Formigamento nas mãos (*tive);
- Sangramento no nariz;
- Mal estar geral (*tive);
- Diarreia;
- Em casos gravíssimos, o indivíduo pode desenvolver um edema pulmonar ou um edema cerebral, ou ainda entrar em coma.
Na minha experiência pessoal, esses efeitos não aconteciam todos de uma vez. Quando um sintoma desaparecia, logo em seguida outro aparecia.
O formigamento nas mãos, especialmente na ponta dos dedos, foi o efeito com o qual fiquei mais assustada.
Não desmaiei, mas presenciei um desmaio na Rainbow Mountain (também chamada de Montanha das 7 Cores ou Vinicunca), no Peru. Na ocasião, eu emprestei minha lata de oxigênio para ajudar o rapaz desmaiado a recuperar os sentidos. Assim que coloquei o oxigênio e acionei o spray, ele acordou instantaneamente.
Afinal, em altitudes elevadas falta oxigênio?
Quanto mais alto um terreno, menor é a pressão atmosférica.
A diminuição da pressão atmosférica provoca uma expansão nas moléculas de ar. Ou seja, essas moléculas ficam mais afastadas.
Até 20000m de altitude, segundo o site desnível.pt, a concentração de oxigênio presente no ar é constante – cerca de 21%.
No entanto, com a expansão das moléculas de ar em locais de menor pressão atmosférica, um número menor de moléculas de oxigênio entra no nosso organismo quando inalamos o ar.
Segundo o Centro de Informação em Saúde para Viajantes da UFRJ, em texto assinado por Terezinha Maria P. P. Castiñeiras, Luciana G. F. Pedro e Fernando S. V. Martins, ao nível do mar, a pressão atmosférica é de 760 mmHg (milímetros de Mercúrio) e a pressão parcial do oxigênio é de 159,6 mmHg (que corresponde a 21% de 760).
Como a disponibilidade de oxigênio depende de sua pressão parcial na atmosfera, à medida em que diminui a pressão atmosférica pela altitude, a pressão parcial e, consequentemente, a disponibilidade do oxigênio também irão diminuir. Assim, por exemplo, a 2500 m de altitude, a pressão atmosférica é de 544 mmHg e a pressão inicial do oxigênio é de 114,4 mmHg (21% de 544).
Isto provoca a sensação de falta de ar e cansaço. Ainda segundo Centro de Informação em Saúde para Viajantes da UFRJ, para compensar a “falta de oxigênio” (lembrando que a porcentagem do oxigênio no ar não mudou), nosso corpo imediatamente responde com um aumento da frequência cardíaca – o que gera a elevação dos batimentos cardíacos e potencializa também a sensação de falta de ar – fazendo com que fiquemos ofegantes.

Como aliviar o soroche ou mal da altitude?
- Hidratação: o ideal é beber, no mínimo, cerca de 3 litros de água. Nem sempre é possível tomar essa quantidade de água diariamente em uma viagem. Os próprios moradores desses lugares de altitude elevada dizem “não coma muito, mas beba muita água”.
- Mascar a folha de coca, chupar bala de coca ou tomar chá de coca: estas opções são populares e estão disponíveis nos mercados, restaurantes e cafés da manhã. Particularmente não gosto de nenhum tipo de chá e tive muita dificuldade em consumir tudo o que tinha o sabor da folha de coca.
- Sorojchi Pills: medicamento vendido nas farmácias e que tem em sua composição Ácido Acetilsalicílico, Salófeno e Cafeína. É específico para o mal de altitude e minimiza os efeitos da vertigem, dor de cabeça, náusea e cansaço. As Sorojchi Pills fazem efeito, mas quando a ação do remédio passa, os sintomas se intensificam novamente.
- Comprar oxigênio: farmácias e supermercados vendem latas de oxigênio de 8 litros, que realmente fazem a diferença durante a viagem. Foi uma das melhores aquisições que fiz.

- Caminhe no seu ritmo: muitos guias de turismo obrigam os turistas a andarem rápido, porque eles querem finalizar logo os passeios. Encontre seu ritmo, seja constante e não se sinta intimidado(a). Fazer um esforço além do que você consegue pode custar a sua saúde e a sua viagem.

- Evite fumar e evite o consumo bebidas alcoólicas.
- Descansar: uma viagem naturalmente já faz com que fiquemos cansados pelos deslocamentos, mudanças de fusos horários, passeios, caminhadas. Sempre que possível, procure descansar, já que nas altas altitudes o ambiente exige mais do corpo.
Algumas altitudes por Chile, Bolívia e Peru:
Como disse anteriormente, foram quase 30 dias de viagem passando apenas por áreas situadas na Cordilheira dos Andes.
Aqui estão algumas altitudes dos lugares visitados:
- La Paz (Bolívia): 3640 m;
- Salar de Uyuni (Bolívia): 3656 m;
- Gêyseres Sol de Mañana: entre 4800 e 5000 m;
- San Pedro de Atacama (Chile): 2408 m;
- Salar de Tara (Chile): 4400 m;
- Arequipa (Peru): 2335 m;
- Cânion do Rio Colca: 4500 m;
- Cusco (Peru): 3399 m;
- Machu Picchu (Peru): 2430 m;
- Rainbow Mountain ou Vinicunca (Peru): 5036 m;
- Puno (Peru): 3827 m;
- Copacabana (Bolivia): 3841 m.
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Espero que esta postagem possa auxiliá-los a se organizarem para uma viagem para lugares de elevadas altitudes.
Essas informações servem não somente para quem vai viajar por Chile, Bolívia e Peru, mas também para outras áreas montanhosas do mundo.
Antes da viagem, também aconselho fazer uma consulta médica e realizar um check-up geral para verificar suas condições de saúde.
Pergunte ao/à profissional de saúde se ele/ela conhece alguma forma de prevenção que pode ser tomada nos dias que precedem a viagem.
Além disso, procure informações prévias da altimetria dos locais que você irá visitar para não ter grandes surpresas.
Será uma alegria ter você nas minhas redes sociais! Estou no Instagram com o perfil @tissiana.souza e espero você por lá também!
