Corrida Internacional de São Silvestre: uma experiência fantástica

Era 26 de dezembro de 2.014 quando decidi sair do marasmo e começar a fazer caminhadas.

Lá por 29 de dezembro daquele mesmo ano, corri meus primeiros 5 minutos em uma esteira.

Começava ali um caminho sem volta: correr! Será que um dia eu seria capaz de participar de uma Corrida Internacional de São Silvestre?

Sim, eu fui capaz e essa se tornou minha corrida de rua favorita!

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Longe se vai quem acredita: eu não fiz apenas uma, eu fiz TRÊS São Silvestres. Essa foto é na primeira, em 2.019!

Minha história com as corridas

Aos poucos fui aumentando as distâncias e os tempos de corrida, alcançando os 3 km e depois os 5 km. Em 2.015 fiz minha primeira corrida de rua na cidade de São Paulo: a etapa de outono do Circuito das Estações, realizada na Praça Charles Müller, em frente ao Estádio do Pacaembu e ao Museu do Futebol.

Em 2.016, uma crise depressiva me tirou dos eixos… foi um ano difícil para minha saúde após passar por uma dengue na semana do carnaval.

Demorei muitos meses para ficar completamente recuperada e somando a perda de um membro da família passei a ter crises de pânico e de ansiedade, além de dificuldade para dormir.

Depois de um tratamento psiquátrico e com o uso medicamentos, me senti novamente disposta a correr mais ou menos na metade de 2.017. Eu nunca ultrapassava a marca dos 5 km, ficando na minha zona de conforto corporal.

Já 2.018 foi um ano de mudanças profissionais e comecei a trabalhar no IBGE em São Paulo, relativamente longe da minha casa. Os treinos ficaram bagunçados, mas me sujeitei a fazer distâncias um pouco maiores, às quais não estava acostumada.

No início de 2.019, passei a treinar mais de frequência e os 10 km vieram de forma lenta e gradual.

Com as corridas de aventura no Desafio 28 Praias (Ubatuba-SP), descobri que poderia chegar a uma Corrida de São Silvestre. Na Etapa Central fiz 13 km, passando pelos mais diferentes tipos de piso – terra, asfalto, areia – e pensei: “É o momento certo!”

Continuei meus treinos de uma forma regrada e em 2.019 fiz a minha primeira Corrida Internacional de São Silvestre. A etapa de 2.020 também estava nos planos, mas veio a pandemia e mudou todas as perspectivas.

Em 2.021, morando novamente no interior e com um trabalho exaustivo como professora – foi meu primeiro ano na área da educação – fiz a São Silvestre junto com meus pais, caminhando os 15 km.

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A chegada em 2021 foi embaixo de muita chuva!

No ano de 2.022, treinando com o auxílio do Edu Mariano Assessoria Esportiva (Itápolis – SP), me inscrevi novamente na prova. Dessa vez, corri cerca de 13 km com a companhia da minha cunhada e tive um desempenho de distância além do que estava previsto.

Em 2.023, faltando aproximadamente 15 dias para novamente fazer a corrida – seria a minha quarta vez – sofri uma lesão no nervo ciático e precisei desistir do evento. Fiquei de cama mais ou menos 1 mês por conta das cores.

Passei o ano de 2.024 tratando o problema com fisioterapia no Instituto Tratalus (Pradópolis-SP) e devido a mais um ano exaustivo de trabalho com muitas situações novas, não consegui nem passar na porta de uma academia. Mais uma vez vou acompanhar a corrida pela televisão.

Corrida Internacional de São Silvestre

A Corrida Internacional de São Silvestre é a principal prova de rua da América do Sul e provavelmente a corrida de rua mais conhecida pelos brasileiros.

Esta prova acontece sempre no dia 31 de Dezembro pelas ruas de São Paulo, data em que se comemora o Dia de São Silvestre. Nem a Revolução de 1.932, nem a 2ª Guerra Mundial provocaram a suspensão de uma edição de São Silvestre. Mas pela primeira vez, em quase 100 anos de história, a prova não aconteceu no último dia do ano de 2.020 devido às medidas sanitárias emergenciais provocadas pela Covid-19.

A organização é feita pela Fundação Cásper Líbero e pela Gazeta Esportiva e é por este motivo que a largada e a chegada sempre ocorrem na Avenida Paulista.

São Silvestre é maratona? Quantos quilômetros tem a Corrida de São Silvestre?

A Corrida de São Silvestre não é uma maratona. Aliás, a prova é 6 km mais curta que uma meia maratona, sendo necessário completar uma distância de 15 km por um percurso que passa pelos principais pontos turísticos de São Paulo.

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A Corrida de São Silvestre em 2021 foi um pouco diferente devido à pandemia da Covid-19.

14 curiosidades sobre a São Silvestre:

1) A corrida foi idealizada pelo jornalista Cásper Líbero, inspirado por uma prova noturna na França onde os participantes faziam o percurso carregando uma tocha.

2) Em 1.925 aconteceu a primeira Corrida de São Silvestre e apenas 48 homens participaram.

3) Nem sempre a Corrida Internacional de São Silvestre teve uma distância de 15 km. Nas suas primeiras edições, o percurso tinha 8 km.

4) Para participar de uma edição de São Silvestre, antigamente ocorriam seletivas nacionais. Em 1.958, uma etapa eliminatória aconteceu em Brasília, sendo a primeira prova de corrida de rua realizada na nova capital do Brasil.

5) 1.964 – depois de 39 anos de prova, pela primeira vez houve a participação de atletas indígenas em uma Corrida de São Silvestre.

6) As mulheres somente foram autorizadas a participar da corrida a partir do ano de 1.975.

7)No ano de 1.989 a corrida deixou de ser noturna e passou a ser vespertina, com largada às 15:15 horas para a elite feminina e às 17:00 horas para a elite masculina e o público geral.

8) O percurso passou a ter 15 km no ano de 1.991 para poder integrar o calendário da IAAF – Associação Internacional das Federações de Atletismo.

9) A portuguesa Rosa Mota é a pessoa que tem o maior número de títulos individuais em edições da Corrida de São Silvestre. Ela foi hexacampeã da prova, vencendo todas as etapas entre 1.981 e 1.986.

10) Paul Tergat é o homem que mais venceu a São Silvestre. O queniano levou os prêmios principais em 1.995, 1.996, 1.998, 1.999 e 2.000.

11) Marilson Gomes dos Santos é o único brasileiro a ter um tricampeonato de São Silvestre (2.003, 2.005 e 2.010).

12) Desde o ano de 2.012, a corrida passou a ser realizada pela manhã.

13) No ano de 2.023, cerca de 35 mil pessoas participaram da prova.

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Primeiros kms da São Silvestre 2021.

14) A última quebra de recorde da prova masculina aconteceu em 2.019 em uma chegada emocionante e surpreendente. O queniano Kibiwot Kandie finalizou a prova em 42 minutos e 59 segundos.

Quanto custa uma inscrição na Corrida Internacional de São Silvestre?

Definitivamente, não é barato participar de uma Corrida Internacional de São Silvestre. No ano de 2.024, a inscrição do kit geral custava R$ 260,00 (custava, porque já se esgotou completamente) – um luxo que nem todo brasileiro tem condição de desembolsar.

Se pensarmos em toda a estrutura que a prova demanda, é um preço justo. Se não houvesse a quantidade de patrocinadores que há, provavelmente seria muito mais caro participar.

Muitas ações são realizadas para evitar fraudes com os números de inscrições (como a que aconteceu no ano de 2.017) e diminuir a participação da “pipoca” (aqueles que correm sem pagar).

Imagine que você pagou os seu mais de 200 contos para fazer tudo bonitinho – receber o kit pré-prova, a camiseta, a medalha, o chip fixado no seu número de inscrição, o kit pós-prova – e na hora da corrida você tenha que passar pelos 15 km com falta de hidratação porque centenas de pessoas tomaram a água que você pagou. Pois é, é isso o que acontece quando há muita gente “infiltrada” na corrida…

Como é participar da Corrida Internacional de São Silvestre? Uma experiência única!

Toda prova de rua tem um sabor especial e gera uma expectativa boa na gente, mas nada se compara a fazer uma Corrida Internacional de São Silvestre.

Desde a espera pela largada já sentimos uma energia diferente pairando no ar: as pessoas sorridentes, as famílias animadas, os casais se preparando para correrem juntos, os grupos de amigos se encontrando, as pessoas fantasiadas…

Essa energia empolgante é sentida diretamente em cada olhar, em cada sorriso, em cada abraço matinal e parece que todo mundo está emanando uma positividade muito intensa. As primeiras selfies, as primeiras filmagens, as primeiras ligações do dia… todas feitas na área de largada com muito entusiasmo. Nem parece que aquelas pessoas que estão ali madrugaram em uma véspera de feriado para dar um “rolezinho” a pé de 15 km.

Quanto mais próximo da largada, maior é a ansiedade e mais o coração acelera. Em mim, essa ansiedade na minha primeira São Silvestre foi gerada por uma preocupação com o percurso e suas variações, em ter energia corporal suficiente para concluir a prova, a possibilidade de não encontrar água nos postos como aconteceu em anos anteriores com atletas inscritos.

Nos anos seguintes, as preocupações foram iniciar a prova usando máscara (2021) e com a previsão do tempo (2022).

Mesmo com as divisões de pelotões estabelecidas por pace, no final das contas todos se misturam num caldeirão de números de todas as cores para chegar até o cronômetro. Começar os 15 km é um processo lento, afinal, são centenas e centenas de pessoas, e Isaac Newton já comprovou há muito que dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo.

Quem larga atrás, como no meu caso, demora bastante para passar pelo cronômetro. Foram cerca de 20 minutos, nas três ocasiões, para escutar o “bip” do meu chip misturado ao de muitos outros chips que iniciavam sua contagem de tempo naquele instante.

O que mais gerou palpitação no início da Corrida de São Silvestre é que o tempo máximo para largar é de 40 minutos e o tempo líquido para realizar a prova é de 2 horas e 30 minutos (ou seja, contando o início da prova, quando os primeiros competidores da elite masculina saíram em disparada).

Então, no total, uma pessoa tem 3 horas e 10 minutos para fazer todo o percurso, que sempre começa às 08:05 da manhã para o pelotão geral e pode ser concluído até às 11:15 da manhã.

Após esse período de pouco mais de 3 horas, os equipamentos são desabilitados e os serviços são desativados na área de chegada, em frente à Fundação Cásper Líbero / TV Gazeta.

Embalados pela música do filme Carruagens de Fogo (Chariots of Fire, 1.981) até quase sairmos da Avenida Paulista, é difícil começar a dar os primeiros trotes, já que é muita gente junto! Mesmo com aquela animação e empolgação, correr torna-se um ato trabalhoso.

Mas é bem ali no comecinho da prova, quando todo mundo ainda está embolado, que vem o primeiro instante de energia e magia da prova com o público: olhar para cima e ver o pontilhão lotado de espectadores batendo palmas, incentivando os atletas, acenando para quem passa correndo. É um momento único e emocionante da prova e dá até para sentir um nó na garganta.

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O início da prova é o momento mais emocionante!

O percurso na Avenida Dr. Arnaldo é muito curto e logo vem a descida avassaladora da Rua Major Natanael, margeando o Cemitério do Araçá. Quem desce essa rua muito embalado aproveitando a força da gravidade já logo sofre a primeira “quebra” na prova ali mesmo no Estádio do Pacaembu.

Aliás, a São Silvestre é necessariamente uma prova de muitas quebras de velocidade tanto pelo volume de gente quanto pelos desníveis altimétricos (subidas e descidas). O calor também é um fator bastante desgastante e existem poucas áreas com sombra durante todo o trajeto.

Se a sua preocupação é ter que correr o tempo todo, pode deixar isso de lado, pois uma grande parte dos inscritos faz a prova caminhando.

Acho que um dos pontos mais interessantes dessa prova é que você nunca se sente sozinho (a). É muita gente ao redor e com uma alegria expressa no rosto. Do começo ao fim, é essa energia positiva pairando no ar e dando forças para sempre contar a quilometragem na regressiva.

Mesmo nos momentos em que o Sol de literalmente racha o côco e o calor intenso sobe do asfalto, me apoiei na energia dos participantes e principalmente naqueles rostos iluminados de felicidade que ficavam nas calçadas aplaudindo, incentivando, e parabenizando aquele bando de desconhecidos de todas as partes do Brasil por estarem ali se sujeitando a todo aquele esforço físico.

A altura do Memorial da América Latina e da Avenida Rio Branco é para mim o trecho mais desgastantes e calorentos da São Silvestre, mas também uma das melhores partes da corrida para interagir com os espectadores.

O povo na calçada fica com as mãos estendidas para que os atletas passem batendo as suas mãos. Bati nas mãos de muita gente que eu nem imagino quem seja, pois aquilo me dava um novo gás, uma regeneração no ânimo e um incentivo para seguir em frente e fazer bonito.

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A São Silvestre é um mar de gente! Na foto dá para ver um pouquinho de como é!

Nas áreas onde havia alguma inclinação, principalmente nas subidas, eu olhava para frente e via um mar de camisetas e em seguida, eu olhava para trás e via esse mesmo mar de pessoas. Coisa única para se apreciar em uma corrida de rua e uma cena muito bonita de se guardar na memória, pois para mim aquilo foi a representação física da busca de um objetivo pessoal, de cumprir uma meta, de sentir as pessoas caminhando para uma mesma direção que proporcionaria ao final uma satisfação positiva.

Costurar pelo Centro Histórico de São Paulo é uma das partes mais bonitas da Corrida de São Silvestre, e eu particularmente adoro o centro da cidade pela sua arquitetura antiga e seus monumentos. Mas não podemos nos enganar: esse trecho é cheio de subidas e descidas bastante sutis, que são capazes de causar um grande cansaço e queda de energia corporal se não controlamos a intensidade da corrida ou da caminhada.

Em 2.019, faltando mais ou menos 3,5 km para o final, bem em frente ao Theatro Municipal, senti que minha pressão ia cair e antes que isso realmente acontecesse, entrei em um restaurante e pedi um sachê de sal. O atendente disse que não tinha o sachê, mas que no fundo do estabelecimento eu encontraria os saleiros.

Derramei sal na mão, passei a língua na palma toda salgada, senti meu corpo reagir e continuei naquela busca para terminar a São Silvestre.

Em 2.022, já um pouco mais afrente do Theatro Municipal, faltando um pouco menos de 3 km para o final, foi o momento em que eu comecei a caminhar, após mais de 12 km correndo em um ritmo constante e agradável. Senti meu estômago muito vazio, praticamente um buraco na barriga. Conhecendo meu corpo como conheço, achei melhor reduzir o passo e economizar a energia restante.

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Reta final da Corrida de São Silvestre, já no Theatro Municipal de São Paulo.

Estar perto da temida subida final da Avenida Brigadeiro Luís Antônio, gera uma certa ansiedade, justamente porque você sabe que passando por aquela “provação”, você termina a prova.

E é incrível quando a gente chega bem pertinho da Avenida, com o povo dizendo: “Vem Brigadeiro”, “Vou te vencer”, “Chegou a Brigadeiro”, “Olha a Brigadeiro” e até “Chupa Brigadeiro”. Pareciam gritos de guerra e novamente veio com mais intensidade aquela vibração positiva no ar.

No final das contas, subir a Avenida Brigadeiro Luís Antônio não é para mim a pior parte da prova, nem a mais difícil, nem a mais terrível. A subida é de fato longa, com 2 km de extensão, mas não é tão inclinada como eu tinha imaginado nos meus pensamentos

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Essa foto é no final da Brigadeiro e olha a minha cara de feliz (2.019)!

Um pouco depois da metade da Brigadeiro, vai aparecer a placa do quilômetro final e o corpo reage instantaneamente a isso! É a regressiva, um dígito, apenas 1 km para realizar aquele seu antigo sonho.

Dali para frente é a correria para virar a Avenida Paulista num gás e energia finais que surgem não sei de onde, que fazem o seu coração vibrar com mais intensidade por estar finalmente naquela rua depois de tantos passos dados.

Cruzar a linha de chegada e novamente escutar o “bip” do chip foi é das sensações mais prazerosas que já senti. No Sol, na chuva… Todas as três vezes foram emocionantes!

No dia da prova de 2.019 me lembro de ter escrito que o impossível era apenas uma questão de tempo. E assim foi por três vezes… a satisfação de ter cumprido o êxito pessoal é muito maior que todo o cansaço e as dores musculares que depois senti no restante do dia. Foram dias em que eu mais senti felicidade por ter alcançado um objetivo tão almejado!

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A alegria de finalizar uma Corrida Internacional de São Silvestre é indescritível!

Espero em 2025 estar com os músculos bem fortalecidos e o ciático bem preparado para percorrer aqueles 15 km – afinal, será o ano da 100ª Corrida Internacional de São Silvestre, e eu quero muito estar presente nesse grande evento do esporte brasileiro!

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E você, deseja correr uma São Silvestre ou já correu em alguma das edições? Conte pra mim a sua experiência nos comentários aqui embaixo!

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