Quando pensamos em grandes civilizações dos tempos pré-coloniais no continente americano, sempre lembramos imediatamente do Império Inca, que dominou parte da América do Sul. O surgimento desse Império data do Século XI e o fim data de 1572, com o assassinato de Tupac Amaru (Fonte: ANPHLAC), considerado o último Sapa Inca.
Nesta postagem, vou descrever informações que considero importantes sobre o Império Inca, pois quando se pensa no domínio dos territórios andinos, e principalmente, nos sítios arqueológicos peruanos, compreender um pouco da história é bastante enriquecedor.

Diferença entre Incas, Astecas e Maias:
Uma das maiores dúvidas que existem é o que diferencia Incas, Astecas e Maias, três antigas civilizações pré-colombianas americanas importantes.
Vejamos como eram essas sociedades:
- Incas:
- Localização: América do Sul;
- Império liderado por um soberano (Sapa Inca);
- Religião: Politeísta (vários deuses);
- Quipo (sistema de contabilidade e informação);
- Período histórico: de 1200 d.C. até o Séc. XVI, com apogeu entre 1438 e 1532;
- Queda: chegada dos colonizadores espanhóis, liderados por Francisco Pizarro;
- Locais importantes: Cuzco, Machu Picchu, Ollantaytambo, Pisac.

- Maias:
- Localização: América Central (Guatemala, Belize, México, El Salvador, Honduras);
- Organização do poder em cidades-estados e reinos;
- Religião: Politeísta;
- Sistema de escrita com hieróglifos;
- Período histórico: entre 2000 a.C a 1520 d.C., com apogeu cultural e populacional entre 300 d.C e 900 d.C., conhecida como a Fase Clássica;
- Queda: desastres naturais, escassez de alimentos, esgotamento da terra;
- Locais importantes: Chichén Itzá (México); Tikal (Guatemala); El Caracol (Belize).
- Astecas:
- Localização: México;
- Império liderado por um soberano;
- Religião: Politeísta;
- Sistema de escrita com pictografia e hieróglifos;
- Período histórico: entre o Séc. XII a 1521, com apogeu entre 1440 e 1520;
- Queda: chegada dos colonizadores espanhóis, liderados por Hernán Cortés;
- Locais importantes: Teotihuacán e Tenochtitlán (atual Cidade do México).
Como surgiu o Império Inca?
Um dos maiores impérios pré-hispânicos das Américas tem seu nascimento associado a duas lendas, segundo o Instituto Cervantes:
- A primeira lenda diz que o fundador do Império Inca – Manco Cápac e sua irmã e esposa Mama Ocllo – são descendentes diretos de Inti (Deus Sol) e teriam nascido na Isla del Sol, no Lago Titicaca. Atualmente, a Isla del Sol se localiza em território boliviano, estando próxima à cidade de Copacabana.
- A segunda lenda afirma que Manco Cápac, junto aos seus irmãos Ayar, teriam deixado Pacaritambo e fundaram Cuzco.

Cuzco – A Capital do Império Inca:
Cuzco, situada no Peru, foi a capital e o centro do Império Inca e teria sido fundada por Manco Cápac, primeiro governador Inca, por volta do ano 1.200 d.C.
No idioma quéchua, Cuzco (Qosqo) significa “o umbigo do mudo” e foi a morada dos 13 imperadores, até a chegada dos colonizadores espanhóis em 1.532. Dois anos depois, no ano de 1.534, a cidade foi dominada por Francisco Pizarro, que iniciou um processo de transformação para deixar as cidades com ares cristãos (Fonte: Revista Planeta, 2019).

Um fato curioso sobre Cuzco é que a cidade apresentava o formato de um puma, animal sagrado para os Incas. Com o crescimento da cidade, esse formato por ser difícil de observar, porém acredita-se que:
- A cabeça do puma é a Fortaleza de Sacsayhuamán;
- O coração é a Plaza de Armas;
- A cauda é o Templo del Coricancha (Fonte: Peru Travel).

Território do Império Inca:
O Império Inca dominou territórios andinos da América do Sul, estendendo-se por 2.600.000 km² e conduzindo cerca de 14 milhões de pessoas (Fonte: ANPHLAC).
Este território englobava:
- Argentina;
- Chile;
- Bolívia;
- Peru;
- Equador
- Colômbia (Fonte: Site Cola da Web).
O auge do domínio Inca foi entre os anos de 1.438, a partir do governo de Pachacuti até a 1.532, já no comando de Atahualpa.

Com base no mapa presente no site Cola da Web, foi durante a liderança de Pachacuti que o império dominou terras na direção norte, chegando ao atual Equador. Outro grande momento de expansão, desta vez para o sul, em direção aos atuais territórios de Bolívia, Chile e Argentina, ocorreu no período de liderança de Huayna Capac.
Tiwantinsuyu – O Verdadeiro Nome do Império Inca:
Pois é…o Império Inca não se chamava “Inca”, mas sim Tiwantinsuyu, que no idioma quéchua significa
- as quarto regiões, ou;
- as quatro partes, ou;
- as quatro terras unidas, ou;
- império dos quatro cantos.
Também há uma variação na escrita do nome, podendo ser chamado de Tahuantinsuyu. Segundo o site Stud Historia, a palavra pode ser desmembrada para compreender melhor o seu significado:
- “Tahua” ou “Tawa” = quatro;
- “tin” = grupo;
- “suyu” = canto, divisão, região.
As quatro regiões que constituíam este grande domínio de terras se dividiam da seguinte maneira, segundo o site ANPHLAC:
- Chinchaysuyu (noroeste do Peru e Equador);
- Antisuyu (parte amazônica);
- Collasuyu (Bolívia);
- Condesuyu (litoral do Pacífico).

Divisão da Sociedade no Império Inca:
A sociedade do Império Inca era formada por uma hierarquia, não havendo mobilidade social, ou seja, era praticamente impossível subir de nível social.
Segundo o site Quero Bolsa, o sistema social era formado por:
- Imperador ou Sapa Inca (do quéchua “Inka Qhapaq”), que significa “Único Inca” ou “Imperador Supremo”. O Sapa Inca era uma mistura de divindade e governante, sendo descendente de Inti (Deus Sol);
- Nobres, Sacerdotes e Chefes Militares, que pertenciam à família do Sapa Inca (Fonte: Uol Educação);
- Guerreiros;
- Camponeses/Agricultores, que formavam a base da hierarquia (Fonte: Uol Educação) e eram a maioria da população (Fonte: Quero Bolsa);
- Escravos, que eram pessoas punidas por pertencerem a algum povo que não se submetia às ordens imperiais ou pessoas obtidas através de guerras. Eram destinados ao trabalho em regiões com difícil acesso (Fonte: Uol Educação).

De acordo com o site Uol Educação, o Sapa Inca, ao assumir o trono, se casava com uma de suas irmãs ou com uma parente próxima e essa tornava-se a Coya (Rainha). O objetivo do casamento com uma pessoa consanguínea era a conservação da pureza da linhagem, bem como preservar a riqueza sempre dentro da mesmo grupo familiar.
Portanto, apesar de nos referirmos ao Império Inca, é importante ressaltar que:
- O termo Inca é uma referência ao Imperador Supremo, ou ainda pode fazer alusão à sua família (filho e esposa) (Fonte: Site Ingresso Machu Picchu);
- O povo não era Inca, mas submetido ao poder do Imperador, sendo chamado de:
- Yanaconas – escravos e prisioneiros;
- Ayllu Hatun Runa – camponeses (o povo em geral);
- Mitimas – pessoas encarregadas de colonizar novas regiões dominadas pelo Imperador, ensinando aos povos os novos costumes (Fonte: Site Ingresso Machu Picchu).
Idioma:
O idioma oficial dos territórios dominados pelo Inca era o quéchua (ou quíchua), que de acordo com o Servicio Nacional del Patrimonio Cultural de Chile, é considerada uma língua única com vários dialetos, atualmente falada por cerca de mais de 8 milhões de pessoas.
O quéchua é uma língua indígena falada em sete países da América do Sul (Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Peru, inclusive no Brasil). Em três países – Bolívia, Equador e Peru – o quéchua é considerado um dos idiomas oficiais (Fonte: Servicio Nacional del Patrimonio Cultural de Chile).
Religião:
Durante o Império Inca, a religião era politeísta, com diversas divindades ligadas a seres e fenômenos da natureza.
Conforme o Site História do Mundo, os deuses mais importantes desta cultura eram:
- Viracocha: o criador do Planeta Terra e de tudo o que existe;
- Inti: Deus Sol, protetor da família imperial. Lembrando que o Sapa Inca é descendente de Inti;

- Mama-Kilya: Mãe Lua e esposa de Inti. Cuida dos ciclos menstruais das mulheres;
- Apu Illapu: Deus da Chuva, dos Raios e das Tempestades e considerado uma divindade agrícola;
- Pachamama: a Mãe Terra, responsável pelas montanhas, rochas, planícies e o mundo das coisas visíveis. A deusa da fertilidade da terra;

- Mama Cocha: deusa das águas dos rios e dos mares (Fonte: Site Illapa – Culturas Andinas).
- Supay: representava a morte e a escuridão, que punia os que não cumpriam os seus deveres durante a vida (Fonte: Site Illapa – Culturas Andinas).
A Trilogia Inca:
Segundo Castañeda (2018), a Trilogia Inca (ou Trilogia del Inka) faz parte de um conceito mais abrangente, denominado “Cosmovisão Andina”, que é formada por três conceitos:
- Hanan Pacha – o mundo de cima ou do divino;
- Kay Pacha – mundo dos vivos;
- Uko Pacha – mundo dos mortos e o que está abaixo da terra.
A Cosmovisão Andina trata do sobrenatural e do medo do desconhecido, da religiosidade humana, de questões filosóficas com “de onde viemos?”, “para onde vamos após a morte?” ou “será existem outros mundos?”. Também busca entender fenômenos da natureza, como os raios, erupções vulcânicas, arco-íris, etc. (Castañeda, 2018).

Assim, a Trilogia Inca se constitui por animais que representam os mundos da Cosmovisão Andina:
- O Condor – ave símbolo da Cordilheira dos Andes, representa Hanan Pacha. Os incas consideravam o condor como o mensageiro dos deuses e a representação da liberdade, já que voam acima dos picos das montanhas (Castañeda, 2018). Conforme o Site Boleto Machu Picchu, a Cosmovisão Andina acreditava que o condor era o único animal que conseguia se comunicar com o mundo dos deuses e o mundo terreno.

- O Puma – felino terrestre, que habita o mundo dos vivos (Kay Pacha). O puma é ágil, inteligente e sábio (Castañeda, 2018) e se adapta ao mundo terreno desde as áreas tropicais até as montanhas, o que representa sua força e sua paciência (Fonte: Boleto Machu Picchu).
- A Serpente/Cobra – representa Uko Pacha, fazendo a comunicação entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos (Castañeda, 2018) através de seu deslocamento rastejante. A serpente, para os incas, era a representação do infinito (Fonte: Boleto Machu Picchu).

Quipu – o sistema de contagem:
O quipu (ou Khipu) é um sistema de cordas coloridas e nós utilizado pelo Império Inca. Segundo o Museu Nacional/UFRJ,
“os quipus foram utilizados pelos incas como sistema de escrita, para registro de histórias e cantos em língua quéchua, e também de contagem, tanto de rebanhos quanto de pessoas”.
De acordo com a National Geographic, o quipu é constituído por uma corda principal mais grossa na horizontal e cordas menos grossas (secundárias) na vertical, que ficam presas na corda principal. Os nós nas cordas secundárias registravam as informações.

Esse sistema parece simples, porém tem uma grande complexidade, principalmente porque existem nós com padrões diferentes, em quantidades que mudam, cordas secundárias que alteram de cor e tamanho.
O quipu foi o grande sistema de comunicação e armazenamento de dados sobre o Império Inca, já que esta civilização não possuía um sistema alfabético para o registro de documentos.

Sistema de engenharia e arquitetura inca:
O Império Inca é conhecido pelas suas grandes construções que permanecem preservadas até a atualidade.
A civilização Inca dominou a arte da construção e suas edificações resistiram aos abalos sísmicos frequentes que ocorrem na Cordilheira dos Andes.
Conforme o blog Arctrends, da empresa de cerâmicas Portobello, os incas eram especialistas em talhar pedras grandes, com técnicas detalhadas e cálculos matemáticos. Eles priorizaram as formas retangulares.

O corte das pedras permite um encaixe perfeito, sem a necessidade do uso de argamassa (Foto: Site Toda Matéria).
O site Machu Picchu Viagens também traz informações complementares sobre os sistemas de engenharia e arquitetura inca, que se caracterizam pela integração com a paisagem do entorno e pela funcionalidade, simplicidade e eficiência.
Destacam-se os sistemas de terraços agrícolas, em degraus com paredes de pedra, que evitam a erosão nas áreas montanhosas e o melhor aproveitamento do espaço físico.

Outra grande obra de engenharia são os sistemas de drenagem, aquedutos e canais subterrâneos (Fonte: Machu Picchu Viagens), que permitiam aproveitamento mais eficiente das águas.
Rede de Caminhos Incas:
Para ligar um território tão vasto como o do Império Inca, fez-se necessária a construção de uma rede de Caminhos Incas, que conectavam do norte ao sul.
Segundo o site CuscoPeru.com, esta rede tinha um total de 60 mil quilômetros de estradas, que atravessavam as montanhas andinas.

Esses caminhos são conhecidos como “Qhapac Ñan” ou trilhas incas, sendo o trecho mais famoso a Trilha Inca Clássica, de 39 quilômetros de extensão, entre Ollantaytambo e Machu Picchu, que é apenas um dos trechos de toda a rede de caminhos.

De acordo com o site CuscoPeru.com, os caminhos incas têm como características comuns:
- Calçadas de pedras;
- Pontes;
- Tambos (pontos de descanso com alojamentos e alimentação para quem percorria os territórios, como funcionários incas, mensageiros, guerreiros, etc.);
A Agricultura e a Pecuária no Império Inca:
Como destacado anteriormente, os incas utilizavam um sistema de terraços agrícolas nas montanhas andinas.
Conforme a Revista Superinteressante, esse sistema, cujo nome é “andenes” já existia nas civilizações pré-incas, porém foram aperfeiçoadas durante o período dos incas.
Esses sistemas de terraços permitem um melhor aproveitamento da água, proteção das culturas e armazenamento de calor.
O principal sistema em terraço agrícola construído durante o Império Inca é o Moray – situado no atual Vale Sagrado dos Incas, próximo a Cuzco.

O Moray funcionou como um verdadeiro laboratório agrícola em formato de círculos concêntricos, que permitia a existência de diversos microclimas e temperaturas que variavam em até 15°C em seu interior.
Ainda segundo a Revista Superinteressante, no Moray foi praticada a domesticação de espécies, o cruzamento (hibridização) e a rotação de culturas.
A agricultura foi determinante para o sucesso do Império Inca. Seus principais produtos eram o milho, a batata, a quinoa, feijão, amendoim, frutas e a folha de coca.
Com relação à pecuária, os Incas se dedicaram à criação dos camelídeos andinos – Lhamas e Alpacas– que eram animais de carga, forneciam lã e carne. Também faziam parte da dieta alimentar inca o cuy (porquinho-da-índia), aves, peixes e frutos do mar.

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Este post reúne curiosidades e histórias relacionadas ao Império Inca, o maior império pré-colombiano da América do Sul.
O objetivo do texto é que você possa entender algumas características desse antigo povo e, caso viaje para algum país andino que foi dominado por essa civilização, compreenda melhor o contexto histórico quando for a um passeio em um sítio arqueológico, a um museu, ou a outro local que faça referência aos incas.
Espero que estas informações contribuam com o seu conhecimento! Se você acha que faltou algum tópico nesse texto, fique à vontade para fazer um comentário na própria postagem ou entre em contato comigo através do e-mail tissinorole@gmail.com.
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